O cotidiano dos trabalhadores que fizeram a ferrovia funcionar em Aguaí, revelando os desafios, os acidentes, os ofícios e as relações construídas ao longo dos trilhos.
“Oi, pessoal, tudo bem? Cuidado aí onde pisa! Eu sou o trabalhador de linha e moro aqui perto da estação, nas casas de turma. Sou eu quem cuida da manutenção e do funcionamento dos trilhos do trem. O trabalho é muito pesado, é comum ficar horas e horas no sol ou na chuva quando precisam de mim. Temos equipes em todas as estações para ajudar umas às outras.
Precisamos ficar sempre em alerta! Às vezes, no meio do caminho, a locomotiva e os vagões saem dos trilhos. É comum a linha precisar de manutenção para evitar acidentes graves, então, eu e toda a equipe da estação ficamos sempre atentos para manter a segurança das pessoas e das cargas. O conserto dos trilhos pode durar dias e, enquanto não estiver pronto, não voltamos para casa!
Bem, pode ir entrando na estação, porque o trem já vai partir e ele não espera por ninguém!”
O trabalho ferroviário era marcado por desafios e dificuldades causados por acidentes e dias de trabalhos intensos. Descarrilamentos, tombamentos e deslizamentos de terra eram comuns, exigindo reparos complexos e demorados. Além das demandas diárias, esses imprevistos exigiam esforços dobrados para manter a operação ferroviária, muitas vezes submetendo os trabalhadores a condições adversas e em lugares remotos. Os acidentes causavam interrupções na circulação de trens, impactando a economia e a logística, que, em alguns casos, levavammeses para voltar à normalidade.
“Um acidente entre Bauxita e Águas da Prata foi o pior. A locomotiva passou, mas os vagões caíram no buraco porque o fogo nos dormentes soltou a linha. Foi um acidente violento, com uns 20 vagões ou mais. O trecho ficou parado uns três meses até reconstruírem a linha. Ali, carregava-se a Bauxita. Então, tiveram que contratar muitos caminhões, carregavam lá na estação de Bauxita, eles vinham pela rodovia até Águas da Prata, passavam a Prata e no lugar que dava acesso, eles descarregavam e as máquinas carregavam os vagões e acabavam de chegar até Alumínio. Esse negócio demorou mais de três meses.” – José Valdemar Squinca, ex-chefe de estação.
“Ocorria muito acidente, bastante descarrilhamento de trens e a gente constantemente estava fazendo esses atendimentos. Ficava lá dois, três dias até acabar. Tinha o vagão-dormitório, um vagão-cozinha, para as refeições, que acompanhavam a gente no trecho. Aqui no ramal de Caldas, numa época de chuva, teve um deslizamento de terra e houve um tombamento de uma locomotiva em cima da ponte. E isso é uma coisa que ficou marcada, porque trabalhamos uma semana para poder tirar a locomotiva e travou o trecho. Foi um trabalho bem minucioso, com bastante cautela.” – José Luiz Marques Alves, supervisor de manutenção aposentado.
“Tinha aqueles barrancos, em Poços de Caldas, que você olhava lá para baixo e não via nada. De tão fundo que era aquela ribanceira! Nós falávamos: “meu Deus, se o trem cair aqui não sobra nada”. E tinha uns homens lá que percebiam que a gente estava com medo e eu me agarrava no meu pai, com medo que o trem caísse.” – Maria Elizabete Mussato Santos, familiar de ferroviário e moradora da cidade
“Tinha muito acidente, porque a linha era muito fraca, e começaram a chegar máquinas muito pesadas, então não aguentava. Além disso, tinha muita curva lá na montanha. E, na época,havia uma oficina,então trocávamos os truques dos vagões. Quando o trem chegava em Bauxita, você punha a mão na roda e ela estava pegando fogo, de tanto que brecava, pois, para vir, era só descida. Da pista que vai para Poços de Caldas, você vê o trem lá em cima, na serra, descendo. Eu enfrentei tudo isso aí. ” – Geremias Lourenço, conservador de linha aposentado
“Eu sei dizer que quando veio essa Litorina, foi um desastre. Porque era um trem diferente, a gente estava acostumado com a maria-fumaça, e esse trem era muito rápido. Mas o que teve de gente que morreu naquele pedaço onde eu morava.” –Margarete Turolla, parente de ferroviário e moradora da cidade
ACIDENTE NA REGIÃO DE AGUAÍ, PRÓXIMO A ÁGUAS DA PRATA. Autoria de Luiz Claudio Trapp, data desconhecida. Arquivo do grupo “Ferrovia Minha Paixão” (Facebook).
O telefone COM-fio
Os meios de comunicação sempre foram fundamentais para o trabalho do ferroviário. Desde o início da ferrovia, com o uso do telégrafo e a instalação de cabos submarinos, o objetivo era garantir a comunicação rápida e segura entre os trabalhadores. A telegrafia foi muito importante, porque possibilitou a comunicação de longa distância, diminuindo o risco de colisões entre as locomotivas. Com o tempo, outros aparelhos passaram a ser utilizados para melhorar a comunicação e a logística entre os trens e as estações. Dentre eles, foram usados o telex, o staff e ostelefones de linha.
“Antigamente, o telegrama era a forma mais rápida de comunicação, pois os telefones, quando chegaram, eram um serviço bem precário. Chegava um telegrama, e o funcionário da estação providenciava a entrega imediata. Às vezes, era para avisar do falecimento de um parente em outra cidade. Naquela época também não havia carteiros, a gente ia à agência dos Correios e perguntava: — tem carta para mim ou para minha família? Assim, os telegramas eram a forma mais ágil que existia para aproximar as pessoas. Vinham poucos jornais da capital. Aguaí publicava um jornal por mês, depois a cada quinze dias e hoje a tiragem é semanal.”
Arlene Padrão, escritora e moradora da cidade
“Na época, a gente usava um telefone interno, não usava telefone normal que nem o nosso, não existia celular. Tinha um funcionário interno específico que consertava nossa linha telefônica, o nome era guarda-fio. Aqui na estação tinha o telex. Quando eu era auxiliar, era a parte que eu mais gostava de fazer, que era digitar toda manobra, toda movimentação de vagões. Tinha que digitar o número dos vagões, de entrada, de saída, que trem pegou… e isso eu fazia no telex. Telex, a gente gravava numa fitinha amarela e depois transmitia pra Barra Funda. Mas o telégrafo eu não peguei.”
José Valdemar Squinca, chefe de estação aposentado.
PLANTA GERAL DAS ESTRADAS DE FERRO DAS PROVÍNCIAS DE SÃO PAULO, MINAS GERAES E RIO DE JANEIRO E DAS CONEXÕES TELEGRÁFICAS. Crédito Alexandre Speltz, 1885. Acervo Jorge A. Ferreira Jr.
Amizade e companheirismo
A importância da ferrovia na vida dos ferroviários se estendia para além do trabalho. Ao longo dos anos e das horas de convivência, era inevitável o surgimento de amizades sólidas que deixavam o ambiente de trabalho mais leve e prazeroso. Fora dele, havia sempre uma companhia para momentos de lazer, uma cervejinha no bar, uma festa, uma viagem até a praia…e para os momentos difíceis, um ombro amigopara seguir em frente.
A ferrovia não sai da gente, impregna
“É difícil explicar, mas era um sentimento de família. Você se preocupava com o seu amigo. Era uma relação muito próxima que a gente tinha. Por quê? Antes da privatização, você entrava na ferrovia e pensava: vou trabalhar aqui dentro por 35 anos, depois me aposento. Quer dizer, todo mundo que entrava, entrava com esse mesmo pensamento, fazer uma carreira na ferrovia e se aposentar. A maior parte do tempo, você trabalhava por ali, nas localidades. Agora não existe mais esse vínculo de família. Antes, você virava padrinho de casamento dos colegas de trabalho, acompanhava o crescimento dos filhos deles. Hoje não existe mais isso.” -Alberes Paixão, chefe de estação aposentado
“Eu sinto saudade dos amigos. Para mim, a ferrovia era uma extensão da minha casa. Eu passei mais tempo na ferrovia do que na minha casa. Então a ferrovia acaba sendo uma extensão do seu lar.” – Alberes Paixão, chefe de estação aposentado
“Ah, as casas até que não eram ruins, não. Mas eu não cheguei a morar nessas casas de turma que você fala. Eu morava na outra, ao lado da estação, separada. Aqueles que trabalhavam de portador moravam perto da estação, e os de turma, um pouquinho adiante. Mas eram umas casinhas até que bem-feitinhas. Tinha fogão à lenha, quarto, sala e cozinha, o banheiro ficava do lado de fora. E tinha também um espaço lá onde tinha um tanque. Em alguns lugares, o tanque era grande, para todo mundo, as mulheres lavavam roupas juntas.” – Dulce Martins, parente de ferroviário e moradora da cidade
“A casa é a mesma daquela época. A estrutura da casa é a mesma. Só que os caibros eram todos à vista. A gente tampou. Tinha cama de tijolo. E muito rato. Rato, rato… devido ao mato. Essa janela aqui era de pau…” -Zuleide Brás e Flavio Brito, familiares de ferroviário e moradores da casa de turma
“Como auxiliar de estação, você fazia de tudo, controlava a circulação de trens. Na época, quando eu comecei lá em Campinas, eu vendia passagem, cuidava da circulação dos trens. E era um serviço bem dinâmico, não era uma rotina. Serviço ferroviário, você não tem rotina. Cada dia é um dia, cada hora é uma hora, só surpresa.” – Alberes Paixão, chefe de estação aposentado
“Você tinha um status. Em um tempo anterior ao meu, o chefe da estação era também prefeito e delegado. O ferroviário tinha importância na cidade. Todo mundo queria trabalhar na ferrovia.”
Alberes Paixão, chefe de estação aposentado.
“A ferrovia não sai da gente, impregna. Raro é a semana que eu não sonho com a ferrovia” – Alberes Paixão, chefe de estação aposentado
“Ferrovia é muito cativante. Você passa a gostar, faz parte do seu dia a dia. Ferrovia é muito engraçado. Quantas vezes eu saía da ferrovia cansado, chateado pra caramba, mas no outro dia estava ali, pronto e recarregado. A ferrovia fascina as pessoas. Você pode ver, passa um caminhão novo assim, você não vê uma criança olhando. Mas passa o trem, todo mundo para pra admirá-lo. Então, eu não sei o que é, mas é um negócio que é um ímã. A ferrovia atrai as pessoas.” – Alberes Paixão, chefe de estação aposentado
“Aqui, para nós, em Aguaí, principalmente, trabalhar na ferrovia era um privilégio de poucos. Porque não era, assim, constante, que se abria uma oportunidade de emprego na ferrovia. Esses concursos demoravam anos para sair. Hoje, já tem uma facilidade maior. A ferrovia era excelente para a vida da gente; me sinto realizado.” – José Luiz Marques Alves, supervisor de manutenção aposentado
“Bom, o serviço era pesado. Os meus colegas eram muito divertidos, tanto que tenho saudades dos meus amigos, mas do serviço não. Eu passava quatro dias, cinco dias trabalhando aqui. Quando tombava um trem, tinha que fazer manutenção e tudo. Agora, hoje, não se faz mais isso, são seis, sete horas de serviço só. Mas a gente sofria. Posar na serra quando descia barreira, transportar o minério. Era sofrido naquela época. Dos meus amigos, tenho muitas recordações boas, uns que moram em Casa Branca. Muita gente vinha de fora trabalhar aqui; tinha alojamento.” -Geremias Lourenço, conservador de linha aposentado
“O que mais sinto falta são dos amigos, dos parceiros, porque, depois que a gente sai, muitos na minha época saíram junto comigo. Quando eu saí, muitos falaram: “você vai sair, eu vou junto.” E muitos saíram. E a gente sente falta disso. Alguns ainda mantêm contato, outros morreram, outros foram embora. Eu sinto falta disso.” -José Valdemar Squinca, chefe de estação aposentado.
“A ferrovia me fez virar gente, crescer; o meu início de vida foi ali. É isso, amizades e tudo.” -José Valdemar Squinca, chefe de estação aposentado.
Os casos
O FANTASMA DO BULE
Quando o trem noturno parava, as pessoas desciam para tomar um café, acordar e esticar as pernas. Não existia garrafa térmica; era tudo no bule. Ficava lá, esquentava, tomava café, pagava. Depois que o trem ia embora, o filho do dono do bar da estação voltava para casa, porque ele morava perto, e ele ia assoprando no bico do bule. Então, correu a história de que tinha assombração na estação. A estação mal-assombrada… tinha gente que não saía de casa. Os postes eram aqueles tomatinhos; não iluminavam nada. E na madrugada, sempre depois que o trem passava, a assombração aparecia. Até que se descobriu que era ele que soprava no bico do bule.
História cedida por Arlene Padrão
MISTURAS DE EMOÇÕES
“Eu não sei se eu falo tristeza ou se eu falo alegria, porque existem os dois… Lembro do dia em que meu avô chegou e falou, “tenho uma coisa para falar”. Minha avó ficou preocupada e disse, “fala logo… o que que aconteceu? Vai mudar de estação?”, e ele respondeu “não, hoje foi meu último dia de serviço”. Ela já levantou e disse: “capaz, e você vai fazer o que?” Ele respondeu: “minha aposentadoria saiu, mas eu vou ficar mais um tempo”. Ele olhou para mim e falou assim: “não recebi um bom dia”. Ele tomava bênçãos, pegava na mão e beijava. Aí eu fui abraçar ele, ele me pegou no colo e eu comecei a chorar. “Você não vai ficar sem os passeios de trem, porque o vovô ainda vai trabalhar mais um tempo e continua a mesma coisa.” Ele me apertou, sabe aquele que você sente o coração? Eu sinto até hoje.”
História cedida por Ângela Pezuto
UM ALMOÇO INUSITADO
Quando você saía para estagiar, geralmente nessas estações no meio do mato, você não tinha o que comer. Ou você levava, ou você fazia. Você tinha que levar a sua tralha; ser ferroviário era isso, tinha que ter a tralha. Um dia eu fui em Dona Catarina, lá na Sorocabana, ali tinha uma vendinha, e o pessoal me falou: “ó, a mulher da venda serve comida.” Eu falei: “ó, bacana, não vou precisar cozinhar.” Cheguei lá, pedi uma marmita; era um prato feito na época. Ela fez uns negócios e eu comi. Aí eu perguntei para ela: “que mistura é essa aqui?” Ela falou: “ é a bucha”. Eu falei: “mas bucha?”… “É, bucha”. Eu comi bucha. Bucha de tomar banho. Mas enfim, você estava no meio do mato, com fome… você come… bucha de tomar banho.
História cedida por Alberes Paixão
TODO DIA UMA GALINHA
Atrás da estação, tinha um sítio, e o cara criava galinha. Lembro o nome dele até hoje. Puxa vida, olha as ideias que a gente teve: “vamos roubar as galinhas do Edson pra fazer comida”. Todo dia a gente pegava uma galinha dele. Todo dia. E detalhe, chegava à noite, ele gostava de tomar umas pingas, a gente o chamava pra jantar. Ele comia a galinha que a gente roubava durante o dia e nunca percebeu.
História cedida por Alberes Paixão
A CURVA DO GAVIÃO
Tinha um trem, a gente o chamava de P-5, ele ia lá para Mogi-Guaçu, na subida, em uma curva bem grande — era tipo uma atração que havia nesse trecho — o rapaz do restaurante, ele punha um pedaço de carne no garfo e ficava balançando. O gavião vinha batendo as asas lá de longe, enquanto o trem ia passando, e pegava a carne. Todo dia ele fazia isso, o maquinista já estava até acostumado, diminuía a velocidade. E todo mundo abria as janelas e esperava; ficavam geralmente fechadas por causa das fagulhas do trem.
História cedida por Argeu e Cláudio Roque
MEDO DE VENENO DE CASCAVEL
A gente sempre despachava cobra para o Butantã, elas vinham numa caixinha fechada com parafusos em cima, normalmente cascavéis. Eram colocadas no trem de passageiros rumo a São Paulo, para extraírem o veneno e produzirem o soro. Uma noite, um rapaz que trabalhava comigo, disse: “Ô Zé, vamos ver a cobra?” “Que ver cobra o quê! Eu morro de medo desse bicho!” Ele soltou os parafusos da tampa, pegou um vidro, encaixou por baixo dela e abriu. Era uma cascavel bem grande. Eu não sei o que ele aprontou, mas a cobra escapou. E eu morava perto, não fiquei ali, fui embora. Não sei o que aconteceu com a cobra, nem quis saber.