Os rios
— em suas diversas formas, como rios, lagos, riachos e açudes — são alguns dos elementos mais importantes na construção de significados e simbologias em várias comunidades, inclusive as indígenas, estando presentes em vários mitos de criação. Além de seu papel simbólico, historicamente foram fundamentais para o assentamento de populações, muitas vezes determinando como e onde essas comunidades se fixariam. As águas moldam caminhos e fronteiras, construindo nossas noções de território e identidade. Não foi diferente em São Paulo, onde várias cidades e vilarejos levaram o nome, muitas vezes indígena, de cursos d’água locais. Um exemplo é “Mogi”, que significa “grande água” em tupi, nomenclatura comum na região. Isso também se aplica às proximidades do rio Itupeva, afluente do Mogi-Guaçu, que delimitou o primeiro assentamento na área onde hoje se encontra Aguaí. Aqui representamos alguns dos vários cursos de água que direcionaram os caminhos da antiga Cascavel e sua expansão para o oeste.
POEMA ESTAÇÃO
Pátio da Estação – ARLENE PADRÃO
“Saudade
De tempos que não voltam mais
Tempos amados
Pelas quitandeiras d’outrora guardados
Nos bolsos de seus aventais
Essa saudade que tem gosto de fruta
Cesta de taquara, crianças correndo às janelas
Tem cheiro de caju,
Caqui, laranja, goiaba
Fruta da terra, jabuticaba madura…
Tem trem partindo
Moça que suspira
E um sopro do tempo que passa… no ar,
O trem partiu
A fruta acabou
Moleques não correm nem vendem às janelas
Deserto, o Pátio espera
Passarem as muitas quimeras
Da vida, comboio que nunca pode parar…”
Ocupação indígena
A região hoje definida como o estado de São Paulo era originalmente território indígena, povoad por diversas etnias séculos antes da chegada das bandeiras. Povos como Tupis, Guaranis, Tamoios e Tupinambás, entre outros, distribuíam-se por diferentes regiões, principalmente nas planícies próximas aos grandes rios e pelo litoral do estado. No interior oeste do estado, na grande região onde se situa Aguaí, foram encontrados vestígios e sítios arqueológicos que comprovam a presença de indígenas Tupi-Guarani na planície do rio Mogi-Guaçu. Além dessa, encontraram-se evidências arqueológicas de outras tradições, sendo elas a Umbu e Arauto-Sapucaí pela extensão da planície do rio. Muitos nomes de cidades, vilas e rios do estado têm origem em línguas indígenas, principalmente do tronco tupi, incluindo Aguaí.
O imaginário local menciona a presença de indígenas Caiapós na região, o que pode ser justificado pela existência de assentamentos Kayapós do Sul na área atualmente conhecida como o Triângulo Mineiro — região que integrava o trajeto dos bandeirantes pelo Caminho dos Goyazes, rota que também cruzava o oeste paulista.
A expansão para o interior de São Paulo
O avanço das bandeiras para o oeste de São Paulo foi um processo longo. Expedições anteriores ocorreram na região, mas somente no século 18, com a busca por ouro e a necessidade de ocupação do território pela coroa portuguesa, novos caminhos rumo ao interior do país foram abertos.
O bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Filho, foi reconhecido pela historiografia, por muito tempo, como o grande “herói” que desbravou a região, como era conhecido: “O Anhanguera Filho”. É importante destacar que, ao ocupar o território, os bandeirantes dizimaram populações indígenas, que resistiram de diversas formas. Apesar da fama de “desbravadores”, esses homens só conseguiram adentrar os sertões graças ao conhecimento de indígenas e mamelucos, muitos deles escravizados e obrigados a servir como guias e intérpretes. Por meio das várias expedições, violentas e forçadas, realizadas na região, o ouro e outros minerais foram encontrados em abundância na área hoje correspondente ao estado de Goiás, originando assim o chamado “Caminho dos Goyazes”.
De onde vem o nome Anhanguera?
“Anhanguera”, palavra de origem tupi que significa “Diabo Velho”, foi o nome atribuído a Bartolomeu Bueno da Silva, o pai. Ele recebeu essa alcunha após realizar um gesto considerado aterrorizante pelos indígenas: ateou fogo em uma porção de aguardente sobre uma placa de ferro, simulando um domínio sobre o fogo, e ameaçou incendiar o rio caso os nativos não revelassem onde se encontrava o ouro na região.
O pouso do Itupeva
Após a abertura desse novo caminho que se estendia do litoral do estado de São Paulo até povoados mais populosos, como Jundiaí, Mogi e Campinas, o “Caminho dos Goyazes” ganhou rapidamente outros traçados que atravessaram partes dos atuais estados de Minas Gerais e Goiás.
Dessa forma, criaram-se pontos de parada para descanso e abastecimento das tropas, um deles era o “Pouso do Itupeva” —ou Itaypeva, na grafia antiga—, um núcleo de povoamento que recebeu o nome do rio que corta a região, na qual, futuramente, surgiria a cidade de Aguaí. Outros agrupamentos populacionais surgiriam das atividades de extração do ouro e se tornariam vilas e/ou cidades.
É fundamental destacar a importância dos cursos d’água para os deslocamentos dos grupos que iam de um pouso ao outro por meio de pequenas embarcações e/ou canoas.
Pelos caminhos de Saint-Hillaire
Um dos primeiros registros descritivos que temos sobre a região de Aguaí — e do caminho feito pelos viajantes ao interior de Goiás — foi realizado por Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista francês que fez várias viagens pelo interior do Brasil no século 19, descrevendo territórios e suas experiências. Saint-Hilaire realizou o percurso de Franca, oeste de São Paulo, a Itapeva de Faxina, região próxima ao litoral de São Paulo. Em seu texto, o naturalista utilizou a grafia Itapeva para se referir à região que hoje conhecemos como tupeva. É possível que tenha ocorrido um erro de transcrição do manuscrito original: onde ele escreveu Itupeva, transcreveram como Itapeva. A grafia Itaypeva pode ser encontrada em outros textos para se referir à mesma região, indicando possíveis variações de nome decorrentes de traduções, transcrições ou convenções linguísticas do período. Essas informações nos permitem inferir que a região que o autor descreve é, de fato, a região do rio Itupeva.
Depoimento:
“Para lá de Itapeva, a região é plana, com campos descobertos e capões de mato, apresentando uma côr verde encantadora, mas poucas flores (16 de outubro). As casas tornam-se ainda menos raras e encontram-se algumas pessoas na estrada, o que anuncia que saímos do deserto e nos aproximamos de um centro de população. A quatro léguas de Itapeva, parei no sítio Urussanga, pertencente ainda a um filho de Minas Gerais; sítio cujo nome, derivado do guaraní urussanguai, significa “rio da galinha que choca”. A chuva forçou-me a permanecer três dias no local, dentro de um rancho meio descoberto, rancho que ocupei em companhia de duas tropas. Só dispúnhamos de lenha úmida para entreter o fogo, pelo que a fumaça da mesma desprendida nos incomodava sobremaneira; e; eu me mantinha sempre atento, de noite, como de dia, afim de impedir que minhas coleções fôssem atingidas pela água da chuva. É, na verdade, espantoso que proprietários, que vendem seu milho às tropas dos viajantes, não façam a menor despesa para conservar seus ranchos. Afirmava-se que o novo governador JOÃO CARLOS D’OEYNHAUSEN acabava de ordenar, a êsse respeito, severas providências, mas duvido muito que tenham sido cumpridas.” Trecho do livro Saint Hilaire – Viagem a província de São Paulo 1816 – 1822
O café e o Algodão
Com a gradual queda da extração aurífera no século 18 — e o crescimento dos povoamentos do interior do país — o “Sertão” tornou-se ambiente propício para o surgimento de grandes fazendas e suas plantações agrícolas. Isso ocorre quando há uma mudança na intencionalidade das elites, que passam a direcionar seus investimentos para novos empreendimentos. Nesse contexto, o café e o algodão ganharam protagonismo no cenário econômico do Estado.
O protagonismo do café no oeste paulista influenciou, por décadas, decisões logísticas e econômicas no estado. Assim, é interessante observar que aquele caminho, delimitado anos antes, permaneceu como referência geográfica, tornando-se uma das principais rotas de escoamento de mantimentos e bens. O café, ao lado do algodão, impulsionou a industrialização do interior, gerando recursos, criando mão de obra e potencializando a ocupação na região.
As ferrovias de São Paulo
O traçado ferroviário no estado de São Paulo começou a se desenvolver no século 19, impulsionado pela necessidade de escoar materiais diversos para Santos. Uma das primeiras companhias a serem inauguradas foi a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Com aprovação do governo e investimentos das elites do estado, foi possível realizar o primeiro trecho, além de expandir outras linhas em direção ao litoral, avançando cada vez mais para o interior. As linhas foram criadas e conectadas com o intuito de escoar a produção, principalmente de café, para diversas regiões do país e ao mercado externo. Muitos trechos ferroviários seguiam o traçado das grandes fazendas de café, demonstrando a importância do produto. Assim, outras ferrovias foram surgindo, tais como: Estrada de Ferro Bragantina, E.F. Araraquara, Estrada de Ferro São Paulo-Minas, São Paulo Railway, Estrada de Ferro Sorocaba, Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, Estrada de Ferro Bragantina e Estrada de Ferro Mogyana
O caminho da Mogyana
A Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, ou Mogyana, na grafia original, teve seu projeto iniciado em 1873, já com a concessão para expansão até o Rio Grande. Com apoio financeiro privado, incluindo famílias paulistas proprietárias de plantações de café, seu trecho inaugural de 32 km foi finalizado em 1875, ligando as cidades de Campinas e Jaguariúna. Até a década de 1920, a companhia criou ramais que conectavam diversas cidades do oeste paulista, do sul e do Triângulo Mineiro. Um ponto de destaque de sua construção foi a integração com o leito do Rio Grande para transporte de carga, o que fez com que, por um período, ela se chamasse Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação. A linha chegou a quase dois mil quilômetros de extensão e pretendia atingir o estado de Goiás, o que nunca ocorreu, tendo como estação final a cidade de Araguari, em Minas Gerais.

MAPA DA MALHA FERROVIÁRIA DA COMPANHIA MOGIANA DE ESTRADAS DE FERRO EM 1970. Autoria desconhecida, data desconhecida. Arquivo do blog VFCO.
O ramal de Caldas
No tronco principal da Mogiana havia um trecho que ligava Campinas à Casa Branca. Ele foi construído em bitola métrica (cuja distância entre os trilhos é de 1 m) e se desdobrava em vários outros ramais, incluindo o Ramal de Caldas, que ligava São Paulo a Poços de Caldas, Minas Gerais, pelo entroncamento em Cascavel. A cidade de Poços de Caldas teve seu grande aumento populacional no ciclo do ouro, século 18, mantendo sua popularidade devido às águas termais que teriam propriedades terapêuticas.
O ramal de bitola métrica, diferente de outros ramais da Mogiana — que utilizam bitola estreita —, tem 75 quilômetros de extensão e foi inaugurado em 1886, com a presença de Dom Pedro II, recebido com festa nas cidades por onde passou. O ramal foi importante para o transporte de passageiros entre cidades próximas durante muitas décadas, permitindo a integração de diferentes ferrovias, facilitando a chegada e a saída de mercadorias diversas produzidas na região.
Major Braga e a pedra branca
João Joaquim Braga, mais conhecido como Major Braga, era comerciante e administrador, filho de portugueses, nascido na cidade de Braga. É considerado uma das figuras mais importantes para a construção e desenvolvimento de Cascavel. Iniciou sua trajetória com uma casa comercial na cidade de Mogy-Mirim, passou por algumas cidades até chegar à Estação de Caldas (Engenheiro Mendes), onde identificou, na recém-criada estação ferroviária de Cascavel, uma oportunidade de crescimento para a região. Fixou-se nas terras da Fazenda Imbirussu, antes denominada Itupeva, onde construiu a primeira casa da futura cidade que dali surgiria.
Foi do quintal dessa casa que Major Braga extraiu a conhecida Pedra Branca, um marco que representa o início do povoamento da região e as mudanças que a cidade sofreu desde sua fundação.
Quer conheçer o busto do Major Braga em Aguaí? Acesse o link: https://maps.app.goo.gl/WkcbPfnuAXo7zupg7
TEXTO MAJOR BRAGA (TRECHO DE REVISTA)
“Em 1.896, Major Braga demarcou o chamado Largo da Matriz plantando ao seu redor, coqueiros e árvores, as “magnólias” sendo que nesta época foi construído um belíssimo e grande coreto, de porte alto, com duas escadas laterais de alvenaria e madeiras trabalhadas com una enorme cúpula redonda. Com o tempo, foi-se deteriorando e abandonado até ser derrubado na década de 20.
Na esquina da rua Major Braga e 15 de novembro, havia uma enorme figueira e Major Braga colocou ali, à sombra desta árvore, una linda pedra branca com marco histórico, pois até hoje ela se encontra lá, admirada pelo povo e tornou-se assim um símbolo do nosso jardim, colocada agora pelo transcurso do centenário, em um belíssimo monumento.”
Trecho retirado do livro: “PRIMEIRO CENTENÁRIO DE AGUAÍ, 1889-1989”, arquivo disponibilizado por Prefeitura Municipal de Aguaí.