O trem atravessa a história de Matozinhos. Inaugurada em 31 de agosto de 1895, a Estação Ferroviária foi, durante mutas décadas, o epicentro de desenvolvimento industrial, econômico, cultural e social da cidade. O primeiro bairro foi construído nos seus arredores, assim como estabelecimentos comerciais de muito conhecimento e prestígio. Testemunhou bailes, causos e lendas inesquecíveis, que correm na boca miúda de quem os viu e ouviu contarem.
Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, sejam bem-vindas/os a bordo da parada mais charmosa dessa Estação.
Celcinho
Celsinho
Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, sejam bem-vindas/os a bordo da parada mais charmosa dessa Estação. Depois de tanto tempo desativada, voltamos com as atividades a todo o vapor!
Esta é uma viagem especial! Diferente do expresso e do misto, nossos comboios mais conhecidos, não tem hora nem duração marcadas. O trem vai devagar, então, nada de pressa: “pare”, “olhe” e “escute”, como ensinavam nossas placas sinalizadoras. Por aqui, os funcionários atendem por sobrenome, com muita seriedade. Mas, quando precisam de um favor, como levar um bilhete para um amigo ou amistoso em outras paradas, aí eu viro Celsinho…
Eu convido vocês a se encantarem, verdadeiramente, com este lugar! Nesse assunto, eu sou suspeito: trabalhei 30 anos na ferrovia, mais da metade da minha vida. Para cada trem que partia, era uma corrida para telegrafar e avisar a próxima estação. Vi as máquinas se modernizarem, e com elas também me transformei, sem perder o entusiasmo. Esta plataforma presenciou de tudo um pouco, do primeiro encontro com a minha esposa, quando começamos a namorar, à primeira visita da minha filha caçula, recém-nascida. Se é para falar de história, eu tenho aos montes… Capaz de encher vagões e vagões.
Boa viagem!
Alguns ferroviários que passaram por aqui
Estes são alguns dos ferroviários que contribuíram para o desenvolvimento da ferrovia em Matozinhos, cujos nomes foram coletados durante a pesquisa do projeto Estação de Memórias na cidade:
Arnaldo
Celso Fonseca Dias
Cerilo de Melo
Christóvam Aguiar
Cláudio Camilo
Divino
Geraldo Marcelo Ribeiro
Jaime
João Carlos Oliveira
João Pereira
Joaquim Pereira
Josafá
José Antônio Simões
José Augusto Gonçalves
José Geraldo
José Maria
Laerte Madaleno
Marcus Vinicius
Mauro Flavio
Moisés
Salomé
Seu Gentil
Seu Geraldo
Seu Levi
Zé Louro
Zé Maria
Tipos de trem
A locomotiva vinha passando pelos trilhos com seus mais diferentes tipos de funcionamento e modelos de vagões. Conheça alguns dos tipos de trens dos tempos em que a estação estava em funcionamento em Matozinhos:
Maria-fumaça: locomotiva feita de ferro e geralmente pintada na cor preta. Sua chegada era anunciada por um apito forte. Para que a locomotiva se movesse, era preciso ter carvão, lenha e fogo, materiais usados no aquecimento da água. Quando a água esquentava, ela produzia o vapor, que era usado como combustível. Eram necessárias, ainda, paradas periódicas para o abastecimento de água.
Trem noturno: conhecido por ser sofisticado, mas também por fazer viagens mais longas. Era destinado a passageiros, então tinha bancos confortáveis e acolchoados – até mesmo comportava um dormitório com camas. A parte do dormitório contava com cabines e cortinas, que davam mais privacidade aos passageiros. Havia leitos superiores e inferiores, semelhantes a beliches.
Trem expresso: viajava durante o dia com maior velocidade. Os vagões dos trens de passageiro eram divididos em primeira e segunda classes, de acordo com o valor das passagens. Havia também o vagão onde funcionava o restaurante, para garantir a alimentação dos passageiros durante viagens longas.
Trem cargueiro: eram transportadas cargas de todo tipo, mas não era permitido o transporte de passageiros. No caso dos trens de carga, a entrega da mercadoria era responsabilidade do maquinista e do agente de estação, que deveriam assumir as despesas em caso de devolução de mercadorias entregues incorretamente.
Trem misto: transportava passageiros e cargas em vagões separados. Era considerado um meio de transporte mais simples. Tinha bancos grandes, com até quatro lugares, todos de madeira. Os vagões seguiam abarrotados de passageiros – muitos deles em pé.
Trem pagador: responsável por transportar o dinheiro usado para pagar os salários dos funcionários da estação. Passava cerca de uma vez por mês. Com grandes malotes de dinheiro, o trem pagador levava os salários dos funcionários e era recebido com grande animação nas cidades. Logo quando chegava, os ferroviários faziam fila para receber. Além disso, por carregar grande quantidade de dinheiro, ele era feito de material bem resistente, semelhante aos carros-fortes atuais.
Trem cooperativo: eram dois vagões que transportavam alimentos e mercadorias, vendidos para os ferroviários que trabalhavam na via permanente. Como esses profissionais que ficavam nas turmas estavam quase sempre distantes das cidades, essa era uma forma de manter o trabalhador na localidade. Esses alimentos e mercadorias eram descontados dos salários dos trabalhadores.
Registros da Estação
Confira alguns registros em imagens da Estação de Matozinhos em funcionamento!
José Simões (à esquerda), ex-chefe da Estação de Matozinhos (à época
da foto era agente de estação), e Adilson (à direita), ex-manobrador, em
frente à construção. Arquivo pessoal de José Simões
Vista do Bairro da Estação no século XX, autor e data desconhecidos. Acervo do Palácio da Cultura
Bairro da Estação, autor e data desconhecidos. Arquivo do Palácio da Cultura
Estação Ferroviária de Matozinhos, segunda metade do século XX.
Acervo do Palácio da Cultura
Agente de estação Celso Dias trabalhando na Estação Ferroviária de
Matozinhos, data desconhecida. Arquivo pessoal da família de Celso Dias
Estação Ferroviária de Matozinhos na época de sua inauguração, autor e data desconhecidos.
Acervo do Palácio da Cultura
Ônibus da Cominci, responsável pelo transporte dos trabalhadores da
fábrica, em frente à Estação Ferroviária de Matozinhos, data desconhecida.
Acervo do Palácio da Cultura
Agente de estação Celso Dias e família na Estação Ferroviária de
Matozinhos, data desconhecida. Arquivo pessoal da família de Celso Dias.
Documentos históricos
Confira alguns registros e documentos históricos encontrados ao longo da pesquisa em Matozinhos.
Comunicação Telegráfica feita pelo ex-agente de estação Celso
Dias, de acidente em trecho próximo a Matozinhos, 1981. Arquivo
pessoal da família de Celso Dias
Formulários de autorização para circulação de trens: licença franca,
condicional e de emergência. Arquivo pessoal da família de Celso Dias
Contra cheque do ex-chefe da Estação
Ferroviária de Matozinhos, Christóvam de
Aguiar, 1975. Arquivo pessoal da família
de Christóvam Aguiar
Horários do trem na Estação Ferroviária
de Matozinhos, data desconhecida. Arquivo
pessoal da família de Celso Dias
Contra cheque do ex-ferroviário Modestino
Rodrigues Pacheco, ingresso na Estrada de
Ferro Central do Brasil em 1906. Arquivo
pessoal da família de Modestino Pacheco)
Lista da turma de alunos do treinamento para agente de estação, 1981.
Arquivo pessoal da família de Celso Dias
Pedido de permissão de uso de pena-d’água em 1965
Livro de Registro de mercadorias nas descargas da Estação de
Matozinhos, de 1956. Arquivo pessoal da família de Celso Dias
Livro de Registro de locações e permissões, de 1959. Arquivo pessoal
da família de Celso Dias