A comunidade negra de Itaúna tem grande participação na história da cidade. Desde sua chegada, sequestrados pelos senhores de terra, lutaram por sua liberdade. Ergueram quilombos e a Capela do Rosário, que até hoje permanece viva, dando origem a uma das festas mais populares da cidade: a Festa do Reinado, que acontece anualmente de 1º a 15 de agosto.
A escravidão em Itaúna
RECENSEAMENTO EM ITAÚNA 1831. 2019, Charles Aquino. Acervo do Blog Itaúna Décadas
Por mais de 300 anos, a escravidão foi instituída no Brasil. Os escravizados, embora resistissem de várias maneiras, eram submetidos a diferentes tipos de tortura e obrigados a trabalhar em grandes fazendasnos períodos colonial e imperial. No século 18, Minas Gerais passou por um período de grande produção de riquezas devido à exploração de ouro e pedras preciosas, o que atraiu grandes fluxos de colonizadores, principalmente portugueses. Os africanos foram forçadamente trazidos como escravizados para atender à demanda de trabalho na mineração. Em Sant’Ana de São João Acima, futura Itaúna, não foi diferente. Aqui, a produção agrícola representava grande parte da economia regional. Os grandes latifundiários eram principalmente brancos ou mestiços de classe média e alta, que viam no trabalho escravo uma forma de garantir os lucros da lavoura.
“Grande centro de agricultura e pecuária que abastecia as zonas de mineração no período do ouro, Sant’Ana de São João Acima transformou-se, posteriormente, em um importante entreposto da região circunvizinha. (…) O comércio de [escravizados] era feito com regularidade e em grandes proporções pela família de João Francisco, do Curtume, pela firma Moreira e Filhos e outros, sendo os maiores proprietários de escravaria o Cel. Manoel Gonçalves Cançado, da Fazenda da Cachoeira, hoje Santanense; Cel. Quintiliano Lopes Cançado, da fazenda Antônio José de Siqueira e outros.”
João Dornas Filho Dornas, Contribuição para a História do Município. 1936. p. 33. Grifo de: Charles Aquino. Disponível em: Blog Itaúna Décadas.
PEIA E LIBAMBO, INSTRUMENTOS DE TORTURA ENCONTRADOS EM FAZENDAS DE ITAÚNA.
Objeto do século 19 presente no acervo do Museu Cel. Francisco Manoel Franco. Fotografia registrada por B. Garcias Photo e armazenada no arquivo BNDigital do Brasil.
Testamentos Itaunenses
Este documento é uma réplica do testamento de Eugenia Maria de São Joaquim. O documento, armazenadoarquivo Judiciário de Pitangui, revela como as pessoas sequestradas nos territórios africanos e escravizadas no Brasil eram tratadas como mercadorias, sendo registradas como “bens móveis” em inventários e testamentos, destinadas à partilha entre herdeiros. A preservação de dados históricos como este é fundamental para que os horrores desse período jamais sejam esquecidos — e para que nunca mais se repitam.
Confira aqui a réplica completa de um dos testamentos de Itaúna: https://drive.google.com/file/d/1pi9Eq4ZLd9VzeyfS5s8mDNqnoGA5fYXY/view?usp=sharing
Réplica do testamento de Eugenia Maria de São Joaquim. O documento, armazenado arquivo Judiciário de Pitangui. Acervo AIC. 2026
Quilombos e Igrejas
De acordo com o levantamento de comunidades quilombolas do Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES), a região de Itaúna contou com a presença dos quilombos de Catumba dos Pretos e Garcias.Os escravizados da região, em sua busca por liberdade, ergueram a Capela do Rosário, no largo do Rosário, por volta de 1840.
INTERIOR DA ANTIGA CAPELA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS.
Autoria desconhecida, séc. 20. Arquivo pessoal Marcial Fernandes
INTERIOR DA IGREJA DO ROSÁRIO.
Autoria desconhecida, séc. 1920. Arquivo pessoal Marcial Fernandes
Dona Sãozinha
Maria da Conceição Basílio de Jesus, mais conhecida como Dona Sãozinha, foi coroada Rainha da Irmandade de Santa Efigênia aos 17 anos. Seguiu seu reinado até o fim de sua vida. Durante todos esses anos, manteve viva a festa, a fé e as tradições, sendo sinônimo da força da comunidade afro-brasileira itaunense. Sua casa foi sede de três guardas de congo, um candombe e uma guarda de vilão, o que transformou o local em ponto de referência na época da festa do reinado.
Maria da Conceição Basílio de Jesus, mais conhecida como Dona Sãozinha, foi coroada Rainha da Irmandade de Santa Efigênia aos 17 anos. Seguiu seu reinado até o fim de sua vida. Durante todos esses anos, manteve viva a festa, a fé e as tradições, sendo sinônimo da força da comunidade afro-brasileira itaunense. Sua casa foi sede de três guardas de congo, um candombe e uma guarda de vilão, o que transformou o local em ponto de referência na época da festa do reinado.
Reinado
O Reinado, em Itaúna, tradição de mais de 200 anos, inicia-se no dia 1º de agosto e vai até o dia 17 do mesmo mês. Como a principal celebração da cidade, tem origem afro-brasileira, é marcada por rituais com elementos culturais e religiosos afrocatólicos. A devoção à Nossa Senhora do Rosário, é tradicionalmente organizado e regido pela irmandade Sete Guardas de Nossa Senhora do Rosário. O Reinado se destaca como uma forma de resistência, preservação cultural e prática espiritual. Na década de 1930, os festejos foram proibidos pela Igreja Católica em Minas Gerais, mas em Itaúna, a celebração persistiu e se reinventou. Como forma de resistência, a população negra ergueu uma capela ao lado da Igreja do Rosário, dando continuidade às festividades mesmo com proibições. 90 anos depois da proibição, guardas do Reinado ainda celebram a festa ao lado dessa capela.
FESTA DO REINADO EM MINAS GERAIS.
Autoria desconhecida, anos 50. Acervo do Arquivo Público Mineiro
FESTA DO REINADO.
Autoria desconhecida, anos 50. Acervo do Arquivo Público Mineiro
FESTA DO REINADO.
Autoria desconhecida, 15/08/1952. Acervo do Arquivo Público Mineiro
DILERMANDO, REI CONGO DE ITAÚNA.
Autoria desconhecida, 2024. Arquivo pessoal Deisiane Oliveira
MARIA ANA, RAINHA CONGA DE ITAÚNA.
Autoria desconhecida, 2024. Arquivo pessoal Deisiane Oliveira