Itaúna é feita de histórias vividas no cotidiano. Aqui, memórias pessoais se entrelaçam e revelam modos de viver, sentir e construir a cidade ao longo do tempo.
Guimarães Rosa em Itaúna
REPORTAGEM
O trem se pôs logo em marcha apressada, e no apito rouco da locomotiva gritava o impudor de uma nota de alívio…
Eu quis chamar o homem, para lhe dar um [ sorriso, mas ele ia já longe, sem se voltar nunca, como quem não tem frente, como quem só
[ tem costas…
João Guimarães Rosa (1908-1967), autor da obra Grande Sertão: Veredas,foi um poeta, diplomata, novelista, romancista, contista, médico brasileiroe membro da Academia Brasileira de Letras. No ano de 1930, mudou-se para Itaguara, distrito de Itaúna. Passou a ser presença constante na cidade de Itaúna, que foi referenciada emalguns de seustextos. Dois anos depois, mudou-se, mas deixou amigos com quem trocava cartas.O escritor se considerava itaguaro-itaunense de coração.
CARTA ENVIADA POR GUIMARÃES ROSA AO DR. ANTÔNIO A. DE LIMA COUTINHO, DE ITAÚNA.
Rio de Janeiro, 21 de julho de 1958. Acervo Blog Itaúna Décadas.
Dia do Itaunense ausente
“Antigamente aqui na cidade tinha o Dia do Itaunense Ausente, comemorado no dia 26 de julho, dia de Santa Ana. Olha, pensa numa festa que animava todo mundo! Quem morava fora voltava para cá numa locomotiva especial, só para esse evento. Imagina só, o trem chegando, cheio de gente querida, com aquele clima de reencontro. A gente encontrava parentes que não via há anos.
A festa durava o fim de semana inteirinho na estação, a prefeitura a organizava com muita coisa boa! Era tão bom, mas tão bom, que até hoje dá saudade. Mas acabou, né! Tudo na vida tem seu fim… só que… olha, era especial demais! Era aquela bagunça boa, cheia de abraços, risadas e histórias para contar.” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Almoçando com os famosos
“Um dia, lá na estação, uma máquina quebrou… e olha, não era igual hoje em dia, que tudo é mais fácil de resolver. Ficou lá, parada, sabe-se lá quanto tempo. Mas o engraçado é que o trem estava cheio de gente famosa! Artistas da época, gente de novela!
E aí, sabe o que minha mãe fez? Sem pensar duas vezes, levou todo mundo para almoçar lá em casa! Isso mesmo, os artistas, todo mundo sentado à mesa, como um almoço de domingo. Eu me lembro como se fosse ontem. Era risada para todo lado, gente contando histórias… foi um dia que marcou!” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Rival aqui não!
“Lá em Santanense havia dois times: o Sport de Santanense e o Atlético Santanense, pensa numa rivalidade daquelas! E o clima pegava fogo até dentro da fábrica.
Quando eu já era moça, trabalhei lá, e cada setor tinha seu chefe. Tinha o chefe da tecelagem, o da fiação, o da tinturaria… sabe o que era engraçado? O único que não ligava para futebol era o chefe da fiação, um sujeito neutro. Mas o chefe da tecelagem era atleticano roxo!
E sabe o que ele fazia? Quando aparecia alguém procurando emprego, ele só contratava se fosse do Atlético. Se fosse do Sport ou de outro time… podia esquecer, nem adiantava! Era cada situação…” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Alfinete na saia
“Você tinha que ver como ficava a Praça da Estação quando éramos crianças! Parecia dia de festa, lotada de gente, tão lotada que mal dava para se mexer. Nós, ainda meninas, achávamos graça, e no tumulto fazíamos algumas travessuras. Sabe o que nós fazíamos? Pegávamos um alfinete, íamos para o meio do povo e prendíamos a saia de uma mulher na de outra. Aí, quando elas iam sair ficavam grudadas uma na outra, sem entender nada. Era risada garantida! Coisa de criança, né?”História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Papai Noel na estação
“Nem no carnaval teve tanta gente, como no dia do Papai Noel, o evento superou todas as festas.” Vicente Paulo de Souza, radialista e funcionário público do Museu Municipal.
PAPAI NOEL NO TREM DA VLI.
Gustavo Andrade, data desconhecida. Acervo da VLI
O guarda pó
“Deixe-me contar como era viajar de maria-fumaça antigamente… a locomotiva trabalhava à lenha, com aquela caldeira enorme soltando fogo e um monte de fagulhas pelo caminho.
O povo adorava se arrumar todo para viajar, colocava a melhor roupa para ir até Belo Horizonte, mas, não tinha jeito! As fagulhas vinham pelo ar e, quando a gente chegava, a roupa já estava cheia de furinhos e toda suja.
Mas o pessoal era esperto, começou a usar guarda-pó para proteger a roupa. E todo mundo vestia aquilo, como se fosse um casacão, só para se defender das fagulhas. E funcionava, viu? A maria-fumaça era uma graça, idêntica àquela da Praça da Estação.” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães e Maria Ângela Moreira, moradoras do entorno
O trem me atrasava!
“Ser professora naquele tempo era uma aventura, sabia? Eu tinha que sair de casa uns quarenta, cinquenta minutos antes da aula começar, só para não correr o risco de chegar atrasada. E sabe por quê? Por causa do trem!
Imagina só, eram tantos vagões que, quando ele passava, parecia que nunca ia acabar. Lá ia eu, atravessando perto do hospital, na Silva Jardim, para conseguir chegar no Padre Eustáquio. O trem parava no meio do caminho, demorava… e a gente ficava esperando pacientemente. Era quase como se ele fosse um dos “relógios” da cidade, marcando o ritmo do dia. Olhando agora, até parece engraçado, mas na hora era aquela correria para não perder a aula!” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
“Passei por debaixo do trem!”
“Lá no Padre Eustáquio tem uma travessia que passa embaixo da linha do trem. Quando meus netos eram pequenos, aquilo era uma festa! Eu os colocava no carro, e saíamos correndo daqui para conseguir chegar antes do trem passar.
Era uma correria danada, porque quando o trem passava aqui, nós corríamos para lá, mas sempre dava tempo. E imagina a alegria deles? Um aninho, dois aninhos, adoravam a aventura. Quando a gente passava debaixo do trem, eles contavam para todo mundo: “Passei debaixo do trem!”. Uma coisa simples, mas que dá alegria até hoje de lembrar.” História inspirada no relato de Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno.
Matando a fome
“Seu Pedro era um maquinista que transportava principalmente grãos. Ele tinha nove filhos, e era vizinho da dona Cota, que não ficava muito atrás — tinha dez filhos! Dá para imaginar a correria? Mas sabe o que ele fazia? Ele trazia umas sacas de grãos para casa e ajudava a alimentar não só a própria família, mas também a dos vizinhos. Era uma união tão bonita, todo mundo se ajudando para enfrentar os tempos difíceis.
Graças ao trabalho do Seu Pedro, ninguém passava fome. Ele matava a fome de mais de dez vizinhos, além da própria casa. Era simples, mas era gigante no coração. Até hoje, quem ouve essa história fica emocionado com a generosidade dele. A atitude de um homem fez diferença na vida de muita gente!” História inspirada no relato de Helena Freitas, funcionária do Centro de Convivência do Idoso.
Quase namoro de trem
“Foram três vezes que fui à estação e vi o mesmo moço no trem. Ele sempre ali, olhando pela janela, eu não tirava os olhos dele. Só que na quarta vez, me enchi de coragem e pensei: “Hoje descubro tudo sobre ele. Vou saber onde mora, o nome, tudo direitinho!”
Mas, olha, faltavam apenas 10 minutinhos para o trem partir, eu corria feito doida, indo e vindo tentando ver todos os carros. Quando finalmente consegui, ele me disse que se chamava Zé Milton. Zé Milton… nunca vou esquecer esse nome.
E aí, o trem começou a partir; fiquei desesperada. Corri atrás dele até onde deu, quando vi que não dava mais, sentei-me nos trilhos e chorei… Chorei até cansar. Nunca mais vi o Zé Milton.” História inspirada no relato deIzabel Ricardo, moradora do entorno
Balas grátis
“Quando eu era pequena, viajávamos de trem; lá dentro tinha um moço que vendia balas, dessas normais mesmo, nada de outro mundo. Na minha cabeça de criança, eu achava que aquilo era tudo de graça.
Eu fui lá, toda feliz, e peguei uma bala, desembrulhei e comecei a comer. Aí, quando meu pai viu, ele ficou bravo: “Isso não é de graça não, tem que comprar!” E, claro, como ele não tinha dinheiro, eu acabei levando um beliscãozinho, daqueles que mais assustam do que doem. Depois disso, toda vez que eu via as balas no trem, pensava duas vezes.” História inspirada no relato de Duca, moradora do entorno
Mergulhei, mas não sabia nadar
“Eu ainda era criança e estava passando pelo pontilhão quando, de repente, vi o trem vindo. Não tinha como correr para a frente nem para trás, e eu sabia que precisava agir rápido. Não pensei duas vezes: pulei de mais de 100 metros de altura, no rio que passava embaixo.
Foi um susto daqueles, a sorte é que minha tia morava ali pertinho, então as meninas saíram correndo para chamar meu primo. Ele me encontrou, me tirou do rio porque eu não sabia nadar! Foi por sorte que ali não era tão fundo e tinha muita pedra para dar um suporte, mesmo assim eu caí em cima de umas pedras e esfolei o braço todinho.” História inspirada no relato de Marlene Silva, moradora do entorno
Água na fronha
“Lá em Santanense, havia duas minas de água que eram a salvação para muita gente, especialmente no calor. Fica ali no Ribeirão, e o pontilhão é um pouquinho mais para a frente. A gente ia até lá, pegava a água direto da mina, tudo fresquinho para beber. Uma das minas ficava dentro da casa de um senhor que fez um portão na lateral só para a gente poder entrar e pegar água. O trem, por mais rápido que fosse, no pontilhão parecia diminuir a velocidade. Aí, era a nossa diversão: molhávamos as roupas que estávamos lavando e as jogávamos no trem; era tanta roupa que a gente jogava que ficava até sem fronha.” História inspirada no relato deIzabel Ricardo, moradora do entorno.
Sonhava em namorar um maquinista
“Eu fui criada na roça, só conheci o trem quando já tinha 18 anos. Imagina a emoção! A gente não tinha acesso a nada por lá, era só cavalo para todo lado. Quando finalmente fui para Cajuru de trem, foi uma sensação tão boa, algo que eu nunca havia experimentado. Eu me sentava, ficava lá, observando tudo, adorava ver os maquinistas trabalhando. Hoje em dia nem vemos mais eles, tudo tapado, a gente mal tem acesso àquele lado do trem.
Eu gostava de me sentar perto da janela e ficar olhando tudo, mas, apesar de tanto olhar, nem consegui namorar um maquinista!” História inspirada no relato de Divina Cruz, moradora do entorno
Trem apagador
“Eu morava em Santanense, e de vez em quando falava em ir à estação do centro da cidade, onde passava o trem pagador. Mas o pessoal me fazia medo. “O trem pagador? Você está doida? Eles vão te levar junto!”. É claro que eu ficava cheia de curiosidade, queria entender o que era esse tal trem. Na minha cabeça, era uma palavra só, que trazia um monte de imaginação. Eu pensava: “Será que o trem pegou fogo? E se pegar fogo, como é que apaga?” Era medo e curiosidade misturados. Eu ficava tentando entender o que aquilo significava, sem nunca conseguir descobrir direito.” História inspirada no relato de Izabel Ricardo, moradora do entorno
Pecado de cr$ 5,00
“Na época do trem de passageiro, todo mundo vinha com mala ou saco, e a gente ficava na estação, esperando o trem chegar para levar as malase ganhar uma gorjetinha, assim ajudava em casa e ainda ia ao cinema. O trem vinha, parava uns 10 minutos, o pessoal descia para tomar um cafezinho e, logo depois, ia embora. Mas certo dia, não apareceu nenhuma mala! Agente pensou: “E agora, como é que vamos ao cinema?” Então, um homem desceu e deixou cair algo. Eu vi, mas não podia agachar, então, fui indo para perto dele, tentando despistar e pisei em cima do que tinha caído. Não sabia nem o que era, mas fiquei ali, com o pé quietinho, porque o trem não ia sair até o agente dar a ordem, e eu não queria que o pessoal percebesse. Quando o trem passou pela curva lá na frente, eu tirei o pé e peguei. Era uma nota Cr$5,00! Deu para ir ao cinema, comprar um sanduíche e até um picolé! O tempo passou, e, teve uma visita de um padre aqui em casa. E a Maria (esposa), disse que essa história era pecado. Aí, não teve jeito, tive que confessar!” História inspirada no relato deNilo Silva, morador do entorno.
Quase um circo
“Eu fui criado dentro de um vagão da Rede até meus 8 ou 9 anos. Eu sempre digo que nasci no vagão! Quando precisávamos nos mudar, era só engatar nosso vagão na máquina e partir, e íamos todos juntos. O pessoal, quando nos via chegando, achava que era circo, de tanta gente que era. Dentro do nosso vagão, o quarto era dividido entre meus pais e os quatro filhos. As camas precisavam ser todas amarradas, porque não tinha como deixar nada solto, se não caia tudo quando o trem andava.” História inspirada no relato de José Maria de Aquino, morador de entorno
João de Barro e Bodoque
“Meu pai ia a pé de casa até Azurita, e uma de suas responsabilidades era verificar o que estava interrompendo o funcionamento do telégrafo. Ele precisava observar e resolver o que estivesse impedindo a comunicação, e adivinhem o que causava esses problemas? Casas de joão–de-barro! E, mesmo morrendo de pena, ele tinha que derrubar as casinhas. Além disso, ainda existiam algumas peças de louça ao longo da linha, onde passavam os fios do telégrafo. Os meninos adoravam pegar bodoques e quebrar esses objetos, e, claro, quando meu pai chegava, lá estavam eles, quebrando tudo. Ele tinha que tomar os bodoques das crianças para evitar que continuassem com a brincadeira.”História inspirada no relato deMaria Aparecida “Lili” de Aquino, filha de ferroviário
O Whatsapp da época
“Meu pai, apesar de ninguém na família ter se interessado em seguir a carreira na Rede, fazia os Pica-Paus, que eram pequenos telégrafos feitos de madeira. Era um jeito dele nos ensinar o alfabeto Morse, assim a gente ia aprendendo. Ele nos explicava, por exemplo, como enviar o SOS com o código: “três curtos, três longos, três curtos”. Na época não tinha Instagram, não tinha Facebook, não tinha celular e o meu pai comunicava com outra estação pelo alfabeto Morse, pelo telégrafo. Era o whatsapp da época.”
História inspirada no relato de José Maria de Aquino e Maria Aparecida “Lili” de Aquino, filhos de ferroviários
Baldeação pela janela
“Quando a gente ia de viagem para Bom Sucesso, já éramos mais de 10 pessoas na família. Pegávamos o trem que vinha de Belo Horizonte e, em uma estação, uma parte da turma seguia para Pará de Minas, a gente seguia para Divinópolis. Quando chegávamos lá para fazer a baldeação, era uma confusão: malas, crianças, tudo na mão, os colegas do meu pai, que trabalhavam na Rede e moravam em Divinópolis, estavam sempre prontos a nos ajudar. Um pegava os meninos, outro as malas, porque não tinha lugar marcado na baldeação. Como éramos muitos, alguém se antecipava e entrava no trem para garantir um lugar para a gente, geralmente na primeira classe. E, para a bagunça não ser maior, as malas e as crianças eram jogadas pela janela para que a gente conseguisse se organizar! Era uma verdadeira correria.” História inspirada no relato deMaria Aparecida “Lili” de Aquino, filha de ferroviário
Mas quem é seu povo?
“Eu lembro de uma história engraçada que aconteceu lá na cidade, perto da cooperativa, onde o pessoal tomava muito leite. Um senhor, com uma leiteira na mão, tentou pular para o outro lado do trem, mas o trem começou a andar e ele não conseguiu descer! Só sei que acabou descendo lá na estação de Santanense, naquela época, não tinha telefone, nem celular, então ele começou a pedir: “liga para o meu povo!” Só que ninguém sabia quem era o povo.” História inspirada no relato deMaria Aparecida “Lili” de Aquino, filha de ferroviário
Trem pagador
“A nossa casa era bem pequena, ficava perto da estação, todo mês, entre o dia 1 e o dia 6, anotava-se em um quadro na estação: “Amanhã, às 7 horas da manhã, sairá o Trem Pagador de Belo Horizonte e passará por Itaúna por volta de tal hora.” Todo mundo ficava preocupado, porque se o trem passasse e você não estivesse lá para receber, o pagamento ia embora, e só no mês seguinte é que teria outra chance. Era gente mais idosa, mulheres de vestidos longos arrastados pelo chão, gente de todos os tipos. Eu ficava o dia inteiro fazendo café, porque o trem demorava muito, já que passava por várias estações pagando o pessoal desde Belo Horizonte. De vez em quando, o quadro anunciava: “O Trem Pagador não passará esse mês, motivo, não sei o quê…” aí, era um alvoroço! Todo mundo revoltado, principalmente os aposentados.” História inspirada no relato deMaria Ângela Moreira, neta de ferroviário e moradora do entorno.
De tirar matinho a fiscal
“Meu pai perdeu os pais muito jovem. Ele foi criado por um tio, que era ferroviário e morava em Três Corações. Esse tio, tinha muitos filhos, colocou meu pai para trabalhar desde cedo. A primeira tarefa foi bem simples, tirar os matinhos dos trilhos. Mas conforme ele foi crescendo, as responsabilidades aumentaram. Ele virou manobrista, cuidando para desviar os trens de carga e deixar os outros passarem. Com o tempo, ele se tornou chefe de estação e passou a fazer concursos na Rede até chegar ao cargo de fiscal de renda da Rede Ferroviária. Tudo conquistado por meio de muito esforço e dedicação.” História inspirada no relato deVera e Girson de Araújo, filhos de ferroviário
Minha galinha também vai!
“Eu lembro bem de uma viagem que fizemos de Carmo do Cajurú para Três Corações. A família era grande e a gente nunca ficava em hotel, mas sim na casa de um tio. Minha mãe ficava responsável por arrumar as malas de todo mundo, uma correria danada! O Girson (irmão), era bem pequeno e tinha uma galinha de estimação. Enquanto minha mãe estava ocupada com as malas, ele amarrou uma cordinha no pé da galinha para levar também. Quando minha mãe viu, quase surtou! “A galinha, não!” Ela gritou, mas não sei o que aconteceu depois, só sei que o Girson conseguiu sair da estação com a galinha dele.” História inspirada no relato deVera de Araújo, filha de ferroviário
Dormindo em qualquer lugar
“Lembro que, nas férias, a família inteira pegava o trem noturno. Era uma rotina comum, minha mãe e meu pai contavam os filhos enquanto íamos entrando no trem: “um, dois, três…”. O Girson, nesse dia, foi o último a subir. Não sei o que aconteceu, mas ele acabou caindo no sono na entrada do vagão, naquele tablado que ficava antes de entrar. O trem já tinha começado a andar quando, de repente, parou. O maquinista gritou: “Ô Pedrão, você não olha seu filho não?” O guarda-chaves tinha visto alguém deitado entre os vagões e deu o sinal para o maquinista parar. Quando ele foi verificar, era o Girson!” História inspirada no relato deVera de Araújo, filha de ferroviário
Um namoro de trem
“Quando eu era adolescente, por volta dos 13 ou 14 anos, o pessoal de Divinópolis costumava vir passear de trem pelas cidades vizinhas. E, claro, vinham uns mocinhos bonitinhos, que aproveitavam para paquerar. Eu lembro que paquerei um moço de Divinópolis que vinha até Itaúna de trem só para me ver e voltava no último trem do dia. A gente se encontrava escondido na estação, mas, um dia, minha mãe acabou descobrindo;depois disso, nós não precisamos mais nos esconder. Foi um tempo bem divertido!” História inspirada no relato deVera de Araújo, filha de ferroviário
O trem é afetivo
“Eu acho que o trem tinha algo muito afetivo, as estações e as pessoas… guardamos a memória das chegadas e despedidas, das pessoas trazendo presentes, do movimento do trem. É uma sensação marcante que fica entranhada. Acho que todo filho de ferroviário sente algo parecido. Uma coisa boa da época era estar com a família, porque as famílias de ferroviários eram grandes, com muitos irmãos. Além disso, havia esse contato intenso entre os ferroviários, quase todos eram compadres e comadres. Não havia muito clube, era mais o convívio entre nós, e isso marcou demais. Até hoje, tenho amigos dessa época.”História inspirada no relato deVera de Araújo, filha de ferroviário
Os siriricas
“No final do século 19, a primeira iluminação pública foi colocada bem em frente à estação. Junto com o trem, veio a luz para a cidade. Isso gerou um apelido carinhoso dado pelos para-minenses aos itaunenses: “siriricas”. O nome vem do bichinho que aparece na luz após a chuva. O motivo do apelido? O poste de luz era o centro das atenções, todos se reuniam embaixo dele. Quando era hora do footing, das moças e dos cavalheiros, onde eles se encontravam? Na praça da estação, para admirar a maravilha da eletricidade e a luz elétrica recém-chegada.” História inspirada no relato de Luiz Mascarenhas, pesquisador e professor
O colégio amaldiçoado
“Eu estudei a vida inteira no Colégio Estadual de Itaúna, que foi um presente à cidade, graças à doação da herança de Manoel Gonçalves de Souza, um homem que deixou sua fortuna para construir o hospital e o colégio. A história que os alunos mais velhos contavam era que o Colégio Estadual tinha sido um convento, e que as freiras apareciam de vez em quando. Toda vez que alguém ouvia um barulho estranho na sala de aula, a turma ficava agitada, todo mundo tentava sair correndo pela porta ao mesmo tempo, em busca de explicações ou querendo fugir para longe.”História inspirada no relato deMaria de Fátima Quadros, moradora do entorno
Encontros inesperados
“Eu tinha 18 anos quando andei pela primeira vez de trem. Juntamos uma parte da família e fomos conhecer Belo Vale, onde outros parentes moravam. Então, encontrei um colega que comentou: “tem um primo seu aqui no trem!”. O meu colega foi andando pelos vagões comigo até que nós o encontramos. Eu nunca mais tinha visto esse primo, era o Rogério, e várias outras primas, todos indo para Belo Vale, isso sem combinar. Eu fui muito bem recebida e ficamos conversando em todo o trajeto. Reencontrei minha família dentro do trem.” História inspirada no relato de Geralda Celeste da Silva
O sonho de ser maquinista
“É muito bacana para a gente construir toda uma vida como ferroviário. Era um sonho meu ser maquinista e passar por Itaúna, a cidade onde cresci. Eu sempre me imaginava passando pela cidade que me formou, buzinando e mexendo com as pessoas. Mas, para minha surpresa, eu não consegui me tornar maquinista em Itaúna. Fui para Belo Horizonte, na Supervisão de Belo Horizonte, onde comecei minha carreira. Porém, quando virei inspetor, pude finalmente voltar para cá e conduzir o trem pela cidade, realizando meu sonho de cortar as ruas de Itaúna.” História inspirada no relato de Gleisson Gomes Silva, analista de confiabilidade sênior VLI Logística