Além dos grãos, dos animais para as fazendas e açougues, das entregas do correio e dos passageiros, os trilhos da via férrea transportavam muito mais. Desde as primeiras guardas de reinado até artistas circenses trazendo elefantes, muita novidade chegou a Itaúna pela ferrovia.
“Era uma beleza, uma bondade, o trem trazia tudo o que você pode imaginar. Quando acabou a guerra, dois expedicionários chegaram aqui também pelo trem, a pracinha ficou repleta de gente, foi a maior festa! Teve banda de música, circo, parque.Tudo vinha pelo trem. O circo, quando tinha bicho, ficava aqui na praça.Aqui ficava cheio de gente, o trem transportavatudo.” Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Carnaval
O carnaval de Itaúna tem sua origem no século 19, quando blocos locais, fundados pelos próprios itaunenses, levavam a alegria para as ruas da cidade. O “Bloco dos Farrapos”, um dos mais famosos, foi fundado por ferroviários.Valtinho da Lagoinha, Seu Ambrósio, Seu Obeneval e o Dico da Rede, foram alguns dos responsáveis por esse sucesso. Outro bloco, o “Demorô“, chegou a ser destaque no jornal Folha do Oeste na época.
“Eu descobri que estava grávida do meu primeiro filho no Bloco dos Farrapos. Usávamos fantasiasfeitas com saco de linhagem. Eu só sei que comecei a sentiruma coceira, estava com o corpo todo suado, daí comecei a vomitar. Uma senhora que estava lá, que eu nem lembro quem foi, perguntou: “mas você estava vomitando só por causa do calor?” Eu respondi: “não sei… mas vou continuar”, não consegui, não. Uma semana depois eu fiz o exame, estava grávida.Eu sempre falo que é por isso que o meu filho é doido pelocarnaval, gosta de samba, gosta de tudo. O bloco era grande, quase que Itaúna inteira participava.” Izabel Ricardo, moradora do entorno
“A concentração dos foliões do carnaval era aqui na praça da estação, a turma arrumando namorado, bebendo… daqui ia para a avenida principal, perto da via férrea, subia a Silva Jardim, hoje já mudou. O pessoal chegava mais cedo e ficava aqui, era um lugar turístico. Além da linha férrea e do museu, já foi o palco de grandes acontecimentos carnavalescos, de concentração de bandas, de blocos e de escola de samba.” Vicente Paulo de Souza, radialista e funcionário público do Museu Municipal.
“OSr. Anesio, carnavalesco e guarda-chaves, trabalhava na Rede Ferroviária. Foi ele quem fundou o Bloco dos Farrapos, famoso na Praça da Lagoinha. Naquela época, era todo mundo muito unido.Era assim, um precisava, todos ajudavam. Na alegria, na dificuldade, em tudo, era uma família muito unida.” José Maria de Aquino, filho de ferroviário
“Eu era novinha e o pessoal brincava muito: “Ah, você mora onde?” “Eu moro na BDL.” “O que é isso?” “Beirada da linha.” Então, nós fizemos um bloquinho, minhas amigas e eu. O carnaval era bem vibrante, com cores como amarelo,vermelho e verde, sabe? E a gente tinha tanta dedicação. A minha casa virava uma sede de escola de samba, a minha mãe fazia pão de queijo o dia inteiro para servir às pessoas que bordavam as roupas. As escolas de samba saiam domingo e terça, os blocos saiam sábado e segunda. Era uma movimentação de pessoas. As minhas colegas chegavam para medir a roupa, para escolher, para ajudar a fazer. O bloco da BDL saiu só um ano, depois o povo desistiu. Mas marcou, né?” Maria de Fátima Quadros, moradora do entorno
BLOCO DE CARNAVAL DESFILANDO PELAS RUAS DE ITAÚNA.
Autoria desconhecida, 1980. Acervo do Blog Itaúna Décadas
BLOCO DE CARNAVAL DAS CORISTAS.
Na foto vemos Lígia Monteiro, Vanda Tavares, Maria José Drumond, Myriam Santiago, Vânia Campos, Lúcia Campos, Déia Corradi, Ivone Tavares, Solange Santos, Tânia Dornas.
Autoria desconhecida, década de 60. Arquivo pessoal de Maria Luiz Campos
ADELINO PEREIRA QUADROS DESFILANDO NO CARNAVAL DE ITAÚNA.
Autoria desconhecida, século 20. Arquivo pessoal de Marielen Quadros Santos
BLOCO DEMORÔ
Autoria desconhecida, década de 80. Acervo do Blog Itaúna Décadas
BLOCO DO EU SOZINHO.
Newton Regal.
Autoria desconhecida, anos 80. Arquivo pessoal de Pepe Chaves
Banda nos vagões
Nos vagões das locomotivas, a vida dos ferroviários e de suas famílias se entrelaçava com a música e a cultura, criando um ambiente único de convivência, arte e trabalho árduo. No vaievem das viagens, a música propiciava encontros e alegrias.
“Na turma da Rede, pela qual o meu pai era responsável, havia quem tocasse pandeiro e violão. A cuíca, daqualeles falavam, era uma abóbora seca; lá dentro colocava-se contas–delágrimas amarradas. Ali mesmo, no vagão, eles faziam música, cantavam. Tinha um instrumento que era uma cabaça com um punhado de corda amarrada de lado; hoje eles chamam de xique-xique. O Sr. Ângeloera quem batia os pratos na banda. Os meninos ficavam todos acompanhando o Sr. Ângelo. O Ticó orava, o Zé... a minha mãe cozinhava para eles.” Maria Aparecida “Lili” de Aquino, filha de ferroviário
Serestas
A estação também se transformava em um palco musical. As serestas encantavam os moradores do entorno e os visitantes. Idealizadas por Maria Lúcia Mendes,diretora do Museu Municipal por 12 anos, aconteceramaté 2014, quando o museu foi fechado para reformas. A composição musical, com seu ritmo mais calmo, era acompanhada pelas vozes dos artistas, violões, flautas, cavaquinhos e outros instrumentos.
“Aqui aconteciam as nossas serestas. Eram pessoas mais idosas que cantavam, acompanhadas por um grupo de seresteiros. O pessoal dançava, sabe?”Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
“Na praça da estação,fizemos a primeira Sala da Poesia. Tinha também a seresta, da qual eu fazia parte, há uns 30 anos, por aí… também teve um carnaval nosso, da terceira idade, há 16 anos; Valdez e eu escrevemos um sambinha. Veio um cantor de fora, mas, no intervalo, o nosso grupinho se apresentou, eu fiz a ajuda, ele fez a letra, nós colocamos a melodia e nos apresentamos. Acho que foi o último carnaval da terceira idade que teve por aqui. Escolhemos até a rainha na Praça da Estação.”Izabel Ricardo, moradora do entorno
Circo
O trem de ferro levava mais do que passageiros e cargas. A ferrovia permitiu que cidades interioranas acessassem novas práticas culturais. Assim, no final do século 19, os circos começaram a chegar a locais que antes eram de difícil acesso.Isso não foi diferente em Itaúna. Com o grande desenvolvimento que a cidade estava experimentando, os circos começaram a chegar e a deixar uma marca na memória da população. Esses eventos proporcionavam desde elefantes na praça até uma multidão que se reunia para receber a trupe circense.A festa começava com a chegada na estação e continuava após o espetáculo.
“Quando tinha alguma festa grande, a praça se enchia de gente. Ao chegar um circo na cidade, era a coisa melhor do mundo. Íamos todos. Quando era circo com bichos, era uma sensação. Não conhecíamos leão, elefante, tigre, nem macaco, nem nada. Ficávamos encantados… quando os animais desciam, que beleza que era… o elefante ia andando. Os animais eram descidos assim: abria-se um lado do vagão, colocava-se uma rampinha e dali descia-se as jaulas. Então, vinha um caminhão, pegava as jaulas e saía para a cidade. A emoção que o povo sentia…” Maria Ângela Moreira, neta de ferroviário e moradora do entorno
“Era comum, quando o circo chegava, o palhaço sair às ruas anunciando o espetáculo e convidando os moleques para irem atrás gritando. Em certa ocasião, eu fui um deles. Quem acompanhava o palhaço ganhava um ingresso para ir ao espetáculo. Eu cheguei em casa todo feliz e fui contar que havia ganhado o ingresso, achando que fazia vantagem. Então, minha mãe me perguntou: “como você ganhou esse ingresso”? Além de não me deixar ir ao circo, fiquei de castigo por acompanhar o palhaço.”Nilo Silva, morador do entorno