“Existe uma Itaúna antes da ferrovia e uma Itaúna depois da ferrovia.” Luiz Mascarenhas, pesquisador e professor
Sou Morávia Júnior, engenheiro da ferrovia. Dediquei a minha vida a desenhar caminhos para o futuro, trilhos que cortavam paisagens e uniam destinos. Mas, em meio às locomotivas e às linhas intermináveis, recebi a mais desafiadora e honrosa das missões: ajudar a erguer a nova Matriz de Sant’Ana nos anos de 1930. E, assim como a ferrovia conectava destinos, ela também ligava vidas, histórias e culturas. Cada estação guarda ecos de um tempo em que o trem era o centro da comunidade, unindo pessoas e carregando consigo o ritmo de uma cidade que nunca parava de sonhar.
Legenda: A ilustração desse personagem foi criada com base em relatos dos moradores e colaboradores desse memorial. Ela busca homenagear os trabalhadores ferroviários de Itaúna.
Fonte: Luiz Mascarenhas, pesquisador e professor
A linha Belo Horizonte-Garças de Minas foi aberta entre 1911 e 1916 pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, chegando a possuir 50 estações ferroviárias. Oprimeiro trecho inaugurado foi o de Belo Horizonte a Divinópolis, entre 1911 e 1912, com os ramais de Contagem e Pará (Pará de Minas). O segundo, de Divinópolis a Garças, foi inaugurado entre 1915 e 1916.Atualmente, funciona sob a concessão da FCA, servindo, majoritariamente, para transporte de cargas.
ESCAVAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DA FERROVIA, AO LADO ENGENHEIRO EMÍLIO SCHNOOR EMPRRAMAL DA ESTRADA DE FERRO BELO HORIZONTE - DIVINÓPOLIS.
Autoria desconhecida, 1909. Arquivo pessoal de Charles Aquino
MAPA DAS LINHAS DA ESTRADA DE FERRO OESTE DE MINAS.
Trecho da linha tronco, de Turvo a Bambuí; a linha de Belo Horizonte a Garças de Minas.
Autoria desconhecida, 1927. Acervo do Blog Estrada de Ferro Centro Oeste
“Quando o trem chegou em Minas, tudo em Minas virou trem. É um trem danado, é um trem bom, é um trem muito quente, um trem sem graça… O trem se enraizou tanto na cultura mineira que eu sempre digo isso: Gente, o trem chegou e tudo virou trem!”Luiz Mascarenhas, pesquisador e professor
O apito soou
Antes da construção das estações ferroviárias em Itaúna, já era possível ver a maria-fumaça atravessando a cidade. No dia 10 de março de 1910, a locomotiva número 14 passou pelos trilhos de Itaúna. As comemorações na cidade foram grandiosas, com a população agradecendo especialmente ao Dr. Augusto Gonçalves, ao Cel. Antônio de Mattos, ao Cel. Josias Nogueira Machado e ao Major Senocrit Nogueira, considerados os responsáveis por convencer os engenheiros da EFOM de que ali era o local ideal para a passagem da linha férrea. Com as locomotivas, Itaúna foi ligada às cidades de Belo Horizonte e Divinópolis, dois grandes polos ferroviários do período.
Quando o apito soava, já se sabia que estavam chegando algodão, grãos, cereais e carne na cidade.
“A Rede era uma coisa de outro mundo! Tudo que tinha de importante aqui na cidade vinha pela Rede.”Maria AngelaAmaral Moreira, neta de ferroviário e moradora do entorno
Estação Ferroviária de Itaúna
A Estação Ferroviária de Itaúna, localizada no centro da cidade, atendia tanto à fábrica têxtil Itaunense quanto a outras demandas da cidade, como os correios e o depósito de cargas. No início, quem aqui chegava era recebido em um barracão de madeira e zinco. Em 1911, o prédio foi duplicado. A nova instalação foi inaugurada em 1917, com grande festa, e sua utilização se deu até 1986, sendo tombada como patrimônio culturalem 2007. Em1992, a prefeitura municipal instalou no edifício o Museu Municipal Francisco Manoel Franco.
Estação Ferroviária DE ITAÚNA.
Roberto Capri, 1917. Acervo do Blog Estações Ferroviárias
ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE ITAÚNA.
Autoria desconhecida, década de 80. Arquivo pessoal de Charles Aquino
“Na estação, armazenavam-se as cargas que iam viajar. Haviaum escritório, onde ficavam o chefe de estação e o telégrafo. Íamos lá quase todos os dias para nos pesar na balança. Recebíamos mensagens pelo telégrafo. Eles falavam: “tem mensagem para você.” Então o meu pai ia lá receber, porque não tínhamos telefone em casa.” Elisabeth Coutinho Magalhães, moradora do entorno
Estação Ferroviária de Santanense
Construída em 1920, para atender às demandas da fábrica têxtil, a Estação também recebeu o nome de Santanense. Ao longo de sua existência, ela passou por inúmeras reconstruções, sendo uma das mais marcantesrealizada após um incêndio. Em 1950, um fardo de algodão, que estava na plataforma, pegou fogo devido às fagulhas,incendiando a estação e destruindo-a.Dois anos depois, ela foi reconstruída seguindo a planta original, voltando a atender à Fábrica Santanense e aos moradores da região.
ESTAÇÃO SANTANENSE.
Autoria desconhecida, sem data. Acervo do Arquivo Público de Itaúna
HOSPITAL MANOEL GONÇALVES COM PEQUENA ESTAÇÃO AO LADO DO TRILHO.
Autoria desconhecida, década de 60/70. Arquivo pessoal de Hamilton Pereira
“Na minha adolescência, o trem parava em Santanense às 17 horas. Tínhamos uma turminha que ficava na estação para ver o trem. Ele parava carregado de passageiros. Ficava parado lápor10 minutos.O Sr. Congo falava: “não fica muito perto da beiradinha, não, porque você pode ficar tonta e cair”. Ficávamos quase encostadas na parede. Quando o trem parava, nós íamos conversar com os passageiros dentro do trem. Brincando, falávamos assim: “hoje não arranjei nem um namorado”. Íamos na segunda-feira, quase toda segunda estávamos lá, olhando o trem passar.”Izabel Ricardo, moradora do entorno.
Estação Ferroviária Padre Eustáquio
Também conhecida como a Estação de Vargem de Olaria, a pequena estação localizada no bairro Padre Eustáquio foi inaugurada em 1923. Em meados dos anos 70,passou a ter o mesmo nome do bairro, quando um novo prédio foi construído. Localizada próxima ao alto-forno de uma siderurgia, a estação também servia como terminal de carregamento.
ESTAÇÃO PADRE EUSTÁQUIO.
Elimar Reis de Andrade, dezembro de 2017. Acervo do Blog Estações Ferroviárias
Casa de Caridade Manoel Gonçalves
A Antiga Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, conhecida como “Antigo Hospital”, é o prédio mais antigo de Itaúna. A construção, em estilo neoclássico francês, teve início em 7 de julho de 1916, sendo inaugurada em 14 de novembro de 1919. Idealizada por Manoel e Augusto Gonçalves, foi mantida com parte da herança e patrimônio doados por ele para garantir seu funcionamento. Contou com médicos e irmãs de caridade. Hoje em ruínas, representa importante patrimônio histórico e cultural da cidade.
Casa de Caridade Manoel Gonçalves
Ano e autoria desconhecidos. Arquivo pessoal de Charles Aquino (Blog Itaúna Décadas)
“Olha, existia uma estação na frente do hospital, entre o terreno, que pertencia a Manoel Gonçalves, o doador do hospital junto com a esposa Dona Cota, e o terreno do Coronel Zezé, um dos sócios da Itaunense. Essa estação, foi criada para que as pessoas pudessem frequentar o hospital. Nos anos de 20 e 30, por conta do tratamento de Bácio (o papo), as pessoas chegavam pelo trem para tratar no hospital.” Alexandre Magno Campos, pesquisador e membro do Instituto Histórico Maria de Castro e da Associação Brasileira de Pesquisa de Genealogia.